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História

Vestuário, indústria de identidade e bem-estar


VESTUÁRIO

MAIS QUE MODA, IDENTIDADE 

 

Uma indústria que se sente na pele

Vestuário: cobre o corpo, mostra a alma.

O vestuário é um elemento tão incorporado à cultura humana, que por vezes chegamos a esquecer que ele se compõe de objetos adquiridos, para termos a sensação inconsciente de que ele faz parte de nosso próprio corpo. Parafraseando MacLuhan poderíamos classificá-lo (assim como ele fez com os meios de comunicação), como “extensão do homem”. E a atribuição não é em nada ousada, pois o vestuário é talvez o mais eficiente meio de comunicação não verbal que o ser humano usa, nos dias de hoje e já há séculos.

 “O vestuário, utilizado como interface entre o corpo humano e o meio natural e cultural, tem múltiplas funções cujas origens são complexas, não podendo ser reduzido unicamente à sua funcionalidade. Seus aspectos práticos e simbólicos são indissociáveis, resultando da elaboração cultural da qual fazem parte a linguagem abstrata e a confecção de objetos. Integrando as teorias de Ruffié, Barthes e Bourdieu, podemos considerá-lo também como uma marcante forma de expressão, ou seja, uma linguagem visual que remete ao mesmo tempo ao indivíduo e à sociedade que o produziu.

O estudo das formas vestimentares revela as condições econômicas e os conhecimentos tecnológicos, os modos de produção, os sistemas de pensamento, organização social e as representações simbólicas da sociedade e dos indivíduos”. 

O homem social é um homem vestido, uma vez que a nudez reconduz o homem ao seu estado natural, contra o qual a cultura se interpõe.

Dentre as imagens que as sociedades apresentam de si mesmas o vestuário é um testemunho privilegiado do homem e de sua história.


Algumas considerações sobre o vestuário e a sua localização com elemento social

O vestuário é um conjunto formado pelas peças que compõem o traje e por acessórios que servem para fixá-lo ou complementá-lo. Num sentido amplo do termo, o vestuário é um fato antropológico quase universal, uma vez que na maior parte das sociedades humanas antigas e contemporâneas são usadas peças de vestuário e acessórios que ornamentam o corpo humano.

  A ordem de fenômenos que motiva as escolhas vestimentares humanas pertence ao domínio da cultura. Neste caso, fica claro que o vestuário e seu papel nas sociedades humanas não poderiam ser reduzidos a um valor de proteção, mas antes a um valor simbólico em que o efeito visual dos ornamentos e do traje favoreceria a afirmação da condição humana e o primeiro grau de reconhecimento social

 O vestuário, é “um substrato material portador de significado” e como tal nos remete ao conceito do qual ele é a representação concreta e, ao mesmo tempo, à matéria e à técnica com as quais foi feito. Desse modo, podemos dizer que a origem do vestuário está na manifestação de um significado, tanto individual quanto sociocultural 7. Ou seja, o vestuário – enquanto objeto – engendra uma linguagem não – verbal.

 Ao mesmo tempo, uma outra série de fatos se impõe. Não é por acaso que falamos dos tecidos do corpo e de seus ligamentos. As técnicas relacionadas com a confecção dos trajes parecem estar associadas à própria construção do humano em sua materialidade, ou melhor, à construção do corpo humano enquanto organismo social.

 Com relação à forma do conteúdo, os trajes classificam-se genericamente a partir de sua relação com o dia e a noite, o inverno e o verão, e com os cenários e os acontecimentos sociais. Classificam-se também com relação à categoria civil, militar ou religiosa e à formalidade. 

As mudanças gerais da forma, da técnica de corte, dos materiais empregados mas também as mudanças dos hábitos sociais que se refletem nas formas vestimentares revelam o caráter histórico do vestuário e constituem a forma da expressão.

 A história das formas vestimentares deverá levar em conta as diversas representações do corpo humano, no tempo, no espaço e no interior das diversas camadas sociais. Na longa duração, diferentes formas de vestuário modelaram o corpo, destacando suas características plásticas e evidenciando, através dos investimentos de que era objeto, o valor do corpo humano segundo propósitos e normas culturais.

 Não menos importante, a utilização social e simbólica do vestuário estaria presente na especialização do traje pelo gênero e pelas idades da vida. O status social se afirmaria a partir das categorias de trabalho e intercâmbio e também a partir da ritualização do cotidiano, expressa através dos acontecimentos sociais: ritos de passagem, expressão de sentimentos, saúde, festas, lazer, esporte etc.

 Considerando a propriedade cinética do corpo, fica claro que os aspectos plásticos do vestuário não se reduzem a termos puramente estáticos.    Por outro lado, o significado social que o traje adquire torna-se visível pela estética do vestuário e, ao mesmo tempo, revela a ligação intelectual e afetiva que se estabelece entre as roupas e seus usuários.

Não só a forma e o movimento do corpo servem como referencial para a elaboração das formas vestimentares. O vestuário adapta–se ao ambiente natural ou ao ambiente urbano; ao mesmo tempo, aponta as relações sociais presentes na sociedade em que é usado; por fim, tende a sinalizar os aspectos do indivíduo, inserindo–o no grupo social do qual faz parte.

A combinação das sinalizações de idade, gênero e categoria funcional ou social expressas através do vestuário representam um fator de ordenação visual de uma sociedade. 

Diante do exposto, podemos supor que um estilo vestimentar seria definido ao mesmo tempo por uma base material e um significado social. É nesse contexto que o vestuário, em suas diversas formas e representações sociais, em seus aspectos técnicos e significantes, estudado no tempo e no espaço, vem a ser um rico domínio da cultura material, ainda pouco explorada pela historiografia contemporânea.

Ainda hoje, os estudos sistemáticos das formas vestimentares são bastante raros, refletindo-se em interpretações muitas vezes contraditórias sobre o significado do ornamento e do vestuário.

 (* Citações do trabalho acadêmico, “O vestuário como princípio de leitura do mundo”,  2.007, Simpósio Nacional de História, Profa. Dra. Maria Cristina Volpi Nacif, Doutora em História Social, UFF, Professor Adjunto da Escola de Belas Artes/ UFRJ)

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