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11 jun 2015

Varejistas e fornecedores disputam preços e prazos

Enquanto fabricantes de eletrodomésticos e alimentos buscam reajustes de até 30% nos preços dos produtos, varejistas rejeitam aumento, temendo uma retração ainda maior nas vendas

Para abastecer as suas 503 lojas espalhadas no interior de cinco Estados brasileiros, a Zema, rede varejista especializada em móveis e eletrodomésticos, costumava negociar preços e prazos de pagamento com os gerentes regionais dos seus principais fornecedores. Com a demanda em alta e a inflação sob controle, não havia necessidade de grandes discussões. Ao menor sinal de queda nos estoques, a reposição dos produtos já era feita.

Neste 2015 pré-recessivo o cenário é outro. O consumidor pisou no freio. De acordo com o último Boletim ACVarejo, as vendas do varejo já tinham acumulado queda de 2,1% em 12 meses terminados em maio. E a tendência é de aprofundamento dessa queda. Com o juros do cartão de crédito acima dos 300% ao ano, a inflação acumulando 8,74% em 12 meses e o dólar acima dos R$ 3, era de se esperar que o ano não seria dos mais férteis para os negócios.

Tudo isso tem demandado uma habilidade extra para as negociações. Os lojistas precisam de prazo para que as vendas se transformem em dinheiro no caixa e, consequentemente, paguem os fornecedores. Também precisam segurar os preços, já que o consumidor não está disposto a colocar a mão no bolso. E o mais importante: precisam de uma margem de lucro para continuar operando.

A queda de braço entre lojistas e fornecedores, portanto, está cada vez mais intensa. Neste ano, por exemplo, são os próprios diretores das maiores indústrias do país, como Whirlpool, Philips e Samsung, que vão uma vez por mês até a sede da Zema, em Araxá, no interior de Minas Gerais, para negociar preços, prazos e até estratégias de estímulo às vendas.

“O jogo entre a indústria e o comércio está muito mais acirrado. Passamos a nos reunir uma vez por mês com diretores das principais indústrias do país para discutir preços e prazos. Aquele que for mais flexível leva o nosso pedido”, afirma João Bosco de Oliveira, diretor comercial da Zema, que espera um faturamento de R$ 1,5 bilhões para este ano.

Essa situação não é exclusividade da varejista mineira. Nos últimos 20 dias, três presidentes das maiores multinacionais de eletroeletrônicos do país estiveram na sede Lojas Cem, em Salto, interior de São Paulo, para uma conversa com os irmãos Dalla Vecchia, donos da rede. A pauta das reuniões foi o preço. “Não estamos aceitando os reajustes propostos pelas fabricantes”, afirma José Domingos Alves, supervisor geral da Lojas Cem, rede com faturamento anual da ordem de R$ 4,3 bilhões. “Quando aceitamos o aumento, ele não pode passar de 5%.”

O que tem acontecido neste ano no Brasil é algo que desafia a mais básica regra da economia: a lei da oferta e da demanda. Quanto menos os consumidores estão propensos a comprar, menor deve ser o preço para que a aquisição caiba em seus orçamentos. Neste ano, a fonte secou e, ainda assim, a subida de preços tem sido inevitável – resultado de aumento nos custos operacionais das fabricantes. De janeiro a abril, o preço da energia elétrica subiu 38,1%; dos combustíveis, 8,4%; da água tratada, 2,3%.

O dólar também está pesando no balanço das empresa. De janeiro a maio, a alta média mensal do dólar foi de 16,1%, segundo cálculo da GO Associados, empresa de consultoria econômica. E a taxa básica de juros da economia que, em janeiro, era de 12,25% ao ano, hoje é de 13,25% ao ano. “O que acontece quando o dólar está em alta e a economia, em retração, é que os preços sobem menos, mas sobem”, diz Fábio Silveira, sócio-diretor da GO Associados.

E todo esse aumento de custo enfrentando pelas indústrias, diz Silveira, terá de ser repassado de alguma forma, em algum momento, para o comércio. “Se não for, a economia não anda.”

Tudo isso encarece o custo da operação dos fornecedores, que tendem a passar essa alta aos preços dos produtos. Levantamento do Diário do Comércio com algumas redes de lojas com forte presença em cinco Estados brasileiros revela que as indústrias de eletrodomésticos, portáteis e de eletroeletrônicos tentam, neste momento, reajustar preços em até 20%. No caso de televisores e telefones celulares, a indústria tem tentado aumentos de 10%; de geladeiras e fogões, entre 7% e 8%; de portáteis, 5% e, de móveis, entre 3% e 4%.

Por sua vez, os varejistas não conseguem repassar esses aumentos, já que a clientela está com o pé no freio. O jeito é tentar segurar os aumentos dos fabricantes. “Não estamos fechando negócio, não”, afirma Bosco de Oliveira, da Zema. Nesses primeiros seis meses do ano, mesmo com toda a batalha por prazos e preços, o faturamento real da empresa já amarga queda de 10% quando comparado ao mesmo período do ano anterior.

Com 140 lojas no interior de São Paulo e Minas Gerais, a Cybelar está adotando a mesma prática. “Não dá para repassar para o consumidor nem a inflação. Está difícil vender até com descontos. Todo mundo do nosso setor está catando moedinha que cai no chão, fazendo conta depois da vírgula”, diz Ubirajara Pasquotto, presidente da Cybelar, com faturamento anual da ordem de R$ 800 milhões – e queda nas vendas de 20%.

UTILIDADES DOMÉSTICAS

Com 194 lojas espalhadas pelo país com foco em produtos para a cozinha e pequenos reparos, os gestores da Multicoisas tem encarado reajustes de 5% a 30% nos preços de fornecedores. Boa parte dos produtos vendidos pela rede, que comercializa entre 3 mil e 4 mil itens, dependendo da loja, vem da China, e sofre, portanto, forte influencia da variação cambial.

“Estamos negociando fortemente e, se for o caso, vamos buscar novos parceiros. Alguns fornecedores estão revendo os reajustes para tentar minimizar o impacto no varejo”, diz  Nelson Oshiro Hokama, diretor da rede, que tem crescido neste ano no ritmo da inflação.

ALIMENTOS

A pressão para aumentos de preços também está forte no setor de supermercados. A inflação no setor de alimentos foi um dos principais ganchos para a surpreendente alta de 0,74% nos preços em maio, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). As indústrias, por sua vez, têm oferecido produtos até 12% mais caros, a depender da categoria.

Na Casa Santa Luzia, que fica no coração do Jardins, bairo nobre de São Paulo, a maior pressão vem dos fabricantes de pães, que buscam uma correção de entre 8% e 12% nos preços. Os fornecedores de laticínios e bebidas tentam negociar reajustes de entre 6% e 10%. No início do ano, os aumentos de preços estavam mais concentrados em farinha de trigo, massas e derivados, entre 12%  e 15%.

“As grandes indústrias, como Ambev, Unilever, JBS pressionam mais, pois eles são grandes transatlânticos, que não nos dão muitas brechas para negociar. Mas estamos tentando fazer o nosso papel, que é o de evitar grandes repasses para os consumidores. Não está fácil”, afirma Ana Maria Lopes, diretora da Casa Santa Luzia.

ROUPAS

Apesar de enfrentar um dos períodos mais difíceis da história, o setor de confecções também sofre pressão do aumento de custos. No entanto, por ora não há a menor possibilidade de repasse de custos para o consumidor. Em plena estação de inverno, lojas de ruas e de shoppings já estão em liquidação. “Os nossos custos estão subindo, mas não conseguimos repassar para o varejo. Não sei por quanto tempo vamos suportar esta situação”, afirma Ronald Masijah, presidente do Sindivestuário, sindicato que reúne as confecções paulistas.

Fonte: Fátima Fernandes – Diário do Comércio

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