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Tecnologia escreve futuro da moda

Alguns dos mais interessantes desenvolvimentos recentemente apresentados pela indústria da moda não estão a acontecer na passerelle, mas em laboratório. Técnicas disruptivas de tingimento, couro cultivado laboratorialmente ou têxteis à base de algas são alguns dos exemplos.

Ainda que seja um dos casos mais conhecidos, como cita o portal de moda Fashionista, Stella McCartney veio apenas juntar-se aos muitos nomes da indústria que já recorreram a Silicon Valley para ideias que os possam ajudar a colocar as suas empresas na vanguarda do design e da sustentabilidade.

Das startups que exploram as potencialidades de tingimento com bactérias a grandes retalhistas que estão a usar a química para “fechar o ciclo” do vestuário, há um conjunto de novas descobertas a borbulhar na indústria da moda.

As bactérias pintoras

Para se perceberem os impactos negativos que o tingimento pode ter no planeta, basta apenas olhar para os rios na China e no Bangladesh – têm a cor das coleções da estação, devido à eliminação inadequada de corantes.

Natsai Chieza é biodesigner na Ginkgo Bioworks, startup que está a explorar um método que aplica pigmentos segregados por bactérias para tingir os tecidos.

A técnica reduz significativamente o consumo de água e o próprio pigmento é natural e não tóxico, produzido pela bactéria. Embora ainda existam obstáculos a superar antes de replicar os resultados de Chieza, a oportunidade para a moda sustentável é tão evidente que a biodesigner está confiante de que, em breve, haverá roupa tingida por bactérias à venda no mercado.

O couro do homem

O couro dura e, portanto, não é tão facilmente descartável como muitos dos materiais favoritos da moda, mas a obtenção do couro deixa atrás de si uma grande pegada de carbono, poluição ambiental, sofrimento de animais e, por vezes, a reprovação dos defensores da moda sustentável. Ainda que muitos argumentam que, como subproduto da indústria da alimentar, a indústria do couro reduz consideravelmente o desperdício, a lógica não é válida para muitos outros – especialmente para os ativistas dos direitos dos animais.

É aqui que surge a alternativa da Modern Meadow (ver I&D traz novo couro para o mercado), empresa que está a produzir laboratorialmente couro.

Fundada em 2011, a startup voltou-se para a biotecnologia para literalmente cultivar couro num laboratório através da edição da sequência de ADN. As células são transformadas em pequenas fábricas que misturam colagénio, uma proteína estrutural encontrada na pele dos animais. À medida que são agitadas, as células são cultivadas com uma dieta de nutrientes até que o colagénio se transforme numa rede de fibras, formando uma espécie de folha que pode depois sofrer um processo de curtume e ser usado em vários produtos. Este material é biologicamente comparável ao couro animal, mas sem provocar a morte deste, ao mesmo tempo que diminui o impacto humano e ambiental de preparação e tratamento do couro.

As vantagens da sustentabilidade – bem como as suas possibilidades de design – levaram já mais de 130 empresas a contactar a Meadow Moderno para colaborações.

O potencial das algas

As algas crescem mais rápido do que a grande maioria dos organismos do planeta, incluindo o bambu.

A AlgiKnit, grupo de investigação de biomateriais sediado em Nova Iorque, formado pelos ex-estudantes dos institutos FIT e Pratt que conquistaram o primeiro prémio do BioDesign Challenge em 2016, desenvolveu um fio obtido a partir de biopolímeros extraídos de algas marinhas. Como a lã ou o algodão, o material é suficientemente resistente, mas ainda assim biodegradável. A equipa espera que o fio composto por fibras de algas possa substituir parte dos sintéticos, à base de petróleo.

A AlgiKnit já produziu uma peça de vestuário, feita a mão por um dos elementos da equipa, Aleksandra Gosiewski, mas os ex-estudantes assumem que ainda estão longe de criar um produto que possa ser comercialmente viável. Ainda assim, continuam esperançosos quanto ao impacto ambiental que os tecidos à base de algas possam vir a ter no longo prazo.

«Numa escala global, esperamos que isso seja algo que possa potencialmente reduzir o desperdício têxtil e de água e eliminar os gases de efeito estufa», aponta Goseiwski.

A seda da aranha

As aranhas sempre se mostraram resistentes à domesticação – os aracnídeos acabam sempre por reagir da mesma forma: matam-se e comem-se. O que é lamentável, considerando a resistência da seda de aranha – na mesma base ponderal, a teia de aranha pode ser mais forte do que o aço e mais do resistente que a fibra de aramida usada nos coletes à prova de bala, por exemplo. Leve, elástica e incrivelmente resistente, a seda de aranha encerra um mundo de potencialidades.

Informada sobre a dificuldade do processo de extração da seda de aranha, a startup Bolt Threads optou por obter seda a partir de levedura fermentada em tanques de aço inoxidável com água e açúcar – uma configuração bastante simples (ver O planeta das aranhas). Porém, as sequências de genes que codificam a produção de seda consistem praticamente em apenas duas das quatro moléculas que compõem o ADN, o que significa que são altamente repetitivas e fáceis de destruir. Explorar essas sequências para obter a levedura de forma a conseguir proteínas de seda foi um processo moroso, estimando-se que a Bolt Threads tenha passado por cerca de quatro mil formulações desde que foi fundada, em 2009.

A Bolt Threads não está sozinha na corrida à seda de aranha geneticamente modificada, mas cortou a meta do produto comercial com as primeiras gravatas de seda de aranha não-natural.

Já neste outono, a startup associou-se à designer Stella McCartney para criar algumas peças de vestuário, uma das quais foi incluída na exposição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), “Is Fashion Modern?”.

Química fecha o ciclo

Apesar de todos os esforços, a tecnologia atual ainda não permite reutilizar completamente as peças de roupa descartadas, especialmente se o tecido estiver danificado. Isso significa que as toneladas de vestuário recolhidas à escala global nem sempre voltam ao ciclo da moda.

Uma descoberta recente do Instituto de Investigação e Têxteis de Hong Kong (HKRITA), em parceria com a Fundação H&M pode constituir a solução. O HKRITA anunciou em setembro que desenvolveu com sucesso um método para separar o algodão e o poliéster em misturas de poliéster/algodão que permitem que ambos os materiais sejam reciclados para novos fios. O processo utiliza o calor, quantidades mínimas de água e menos de 5% de produtos químicos biodegradáveis para separar as fibras. O poliéster, em particular, não experimenta perda de qualidade como resultado do processo.

 

 

Fonte: portugaltextil

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